Assembléia de Minas
Guimarães Rosa, o inventor do Sertão

Nascido em Cordisburgo, no dia 27 de junho de 1908, Guimarães Rosa passa boa parte da infância ouvindo histórias contadas por freqüentadores da venda próxima à estação ferroviária e que pertencia a seu pai, seu Fulô. Convive com vaqueiros, policiais, garimpeiros, caçadores, fazendeiros, bordadeiras e violeiros. A sabedoria e a criatividade do sertanejo atiçam-lhe a curiosidade. Juca Bananeira, que se tornará personagem de Sagarana, era funcionário da venda. Rosa acompanha as crianças nas brincadeiras de rua, nos passeios a cavalo ou nas andanças pelo mato, para tomar banho ou caçar passarinho. Em 1917, conclui o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena, em Belo Horizonte, para onde se mudara. Morava na casa do avô materno. Em 1918, após breve passagem por uma escola em São João del-Rei, é matriculado no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Ingressa na Faculdade de Medicina em 1925 e forma-se em 1930. Como médico, trabalha em Itaguara – na época distrito de Itaúna. Em carta ao amigo Manoel Carvalho, raizeiro e receitador da região de Itaguara, escreve Rosa, por volta de 1932: “Continue a mandar fazer as lavagens intestinais, bem como as vaginais. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de cabelos de milho adoçado.” A orientação revela diálogos entre ciência e sabedoria na prática médica do futuro escritor.

Guimarães Rosa participa como médico voluntário, ao lado do ex-presidente JK, da Força Pública de Minas, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Em seguida, atua como médico militar em Barbacena, mas resolve deixar a medicina para ingressar na carreira diplomática. Faz concurso para o Itamaraty em 1934, classificando-se em segundo lugar, sendo nomeado em 11 de julho.

Em carta ao seu tradutor italiano, Eduardo Bizzarri, datada de 25 de fevereiro de 1964, comentando a respeito de sua biografia, o escritor afirma que “o gosto de estudar línguas, e ânsia de viajar mundo, levaram-no a deixar a medicina”. Ao final de 1937, é promovido pelo Itamaraty a cônsul de 2a classe. Com esse cargo chega ao consulado de Hamburgo, em 1938, onde permanece até 1942, enfrentando fortes pressões causadas pelo Nazismo e pela Segunda Guerra Mundial. Durante o período em que esteve na Alemanha, o vice-cônsul aproveitou para conhecer vários países europeus.

Rosa escreve da Alemanha, cidade de Frankfurt, em 12 de novembro de 1940, carta ao amigo diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, utilizando-se de estratégia lúdica e literária. Todas as palavras são grafadas com inicial “c”. Rosa anuncia, na introdução:
Cônsul Caro Colega Cabral, – Compareço, confirmando chegada cordial carta. Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada Consolidação Confraria Camaradagem Consular. Conte comigo! Comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente, condições compendiadas cláusulas contexto clássico código.

Ao final da carta, em meio aos conturbados movimentos da Segunda Grande Guerra, presenciados pelo escritor em terra estrangeira, Rosa relata ao amigo: “costumo compor canções”. Há uma indicação, no texto, de que a parte em versos é para ser cantada. Transcreve sua moda mineira:
“Caso contigo, Carmela,/ caso cumpras condição:/ cobrarei casa, comida/ cama, cavalo, canção,/ carinho, cobres, cachaça,/ carnaval camaradão,/ casino (com conta certa)/ cerveja, coleira e cão,/ chevrolé cinco cilindros,/ canja e consideração,/ (...)”. O desejo de se livrar de paisagens vislumbradas no dia-a-dia, manchadas por ódio e por prepotência racial, é marcante.

No diário escrito por Rosa durante os anos em que viveu na Alemanha nazista, existem relatos preciosos. Surgem descrições fragmentárias a respeito do poder demoníaco que aparece do outro lado do mundo, longe dos redemoinhos do sertão. Os aviões, os toques de recolher, os bombardeios, a falta de alimentos, o ódio aos judeus misturam-se a comentários sobre a vida pacata dos moradores, a moda nas ruas, os concertos de ópera,os cardápios de restaurante. Por meio do diário, conhecemos nuanças, sutilezas que não estão presentes nos livros de história oficial e que enriquecem os estudos sobre a Segunda Guerra. Nas anotações do “Diário de guerra” referentes ao dia 12 de março de 1941, Rosa escreve a respeito de sua percepção noturna da guerra. À meia-noite e 25 minutos, anota que caíra uma granada “pertinho de minha casa”. Estremece, sentado na cadeira, sentindo cheiro de pólvora. A casa parece tremer “de sul a norte” ou “de leste a oeste”. A uma hora da madrugada, sem conseguir dormir, abre a janela, desejando partir para longe. A percepção do terror permanece. No entanto, imagens de fogos transfiguram-se, pela escritura, em desenhos coloridos, tornando-se astros de desconhecida galáxia. Parece haver esperança de que, a qualquer momento, telégrafos anunciem o término do conflito. A guerra, porém, está em seu início, é um monstro que ruge, feroz e cheio de bravura: “(...) A noite está claríssima. A Flak esbanja munição colorida: sobem oblíquas escritas em morse (morsegramas), constelações chovem de baixo para cima: estrelas vermelhas como Antares, etc., etc.”

Diversas vidas de judeus foram salvas graças a Guimarães Rosa e a Aracy Moebius de Carvalho, funcionária do Consulado Brasileiro em Hamburgo que se tornaria a segunda mulher do escritor. Aracy prepara os papéis e consegue que os passaportes não apresentem a religião dos portadores nem a estrela de Davi – símbolo que os nazistas colocam nos documentos e que serve para identificar os judeus. O visto é dado por Rosa. O escritor afirma, em entrevista a Günter Lorenz, que seu espírito de justiça associa-se à sua terra de origem: “eu, o homem do sertão, não posso presenciar injustiças.”

Com o rompimento das relações Brasil–Alemanha, em 1942, provocado pela Segunda Guerra, o escritor, com outros funcionários e intelectuais brasileiros, permanece detido por cerca de quatro meses, em um hotel de Baden-Baden, na Alemanha. De Baden-Baden partem para Lisboa, onde permanecem por mais um mês, até o retorno ao Brasil, de navio. A travessia foi tensa, devido à grande presença de submarinos alemães naquelas águas.

Em 1942, após breve passagem pelo Brasil, Rosa segue para a embaixada brasileira em Bogotá, Colômbia. Em “Páramo”, conto publicado no livro Estas estórias, o narrador criado pelo diplomata escreve sobre um homem ainda jovem que fora parar em um lugar inóspito. O texto foi escrito durante o período em que o escritor viveu em Bogotá e publicado postumamente. Rosa teve dificuldades de adaptação ao posto, devido à altitude, ao clima e à cultura. Podemos ler, no conto: “toda liberdade é fictícia, nenhuma escolha é permitida”. De acordo com o narrador de “Páramo”,
todo verdadeiro grande passo adiante, no crescimento do espírito, exige o baque inteiro do ser, o apalpar imenso de perigos, um falecer no meio das trevas; a passagem. Mas o que vem depois, é o renascimento, um homem mais real e novo, segundo referem os antigos grimórios. Irmãos, acreditem-me.

No ano de 1944, o diplomata volta ao Brasil e começa a trabalhar na Secretaria de Estado, no Rio de Janeiro, permanecendo ali por quatro anos. Em 1946, assume o cargo de chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura. Guimarães Rosa estréia na literatura em 1946, com Sagarana. Em 1947 realiza uma viagem ao Pantanal mato-grossense. Em 1952, Rosa publica, em tiragem restrita, em pequeno livro, o conto “Com o vaqueiro Mariano”. O texto reaparecerá postumamente em Estas estórias, com o título “Entremeio: com o vaqueiro Mariano”. A estória trata de seu encontro, em julho de 1947, em Nhecolândia, no Pantanal, com um pantaneiro, um homem “denso, presente, almado, bom-condutor de sentimentos, (...) governador de si mesmo; e inteligente. Essa pessoa, este homem, é o vaqueiro José Mariano da Silva, meu amigo.”

O escritor segue para Paris em 1948, onde trabalha até 1950. Em 1951, voltando da França, reassume suas funções no gabinete do ministro João Neves da Fontoura. Em carta de Paris, datada de 25 de fevereiro de 1951, Rosa escreve para o diplomata e poeta João Cabral de Melo Neto: “(...) parto contente, principalmente quando penso nas belas chuvas tropicais, com cheiro bom, arco-íris, trovoada e enxurradas, – no campo mineiro, que os gaviões sobrevoam, no odor das vacas, no frango com quiabos, no sol carioca, em tudo.”

Em 1952, no mês de maio, realiza viagem de dez dias pelo sertão de Minas Gerais, com uma comitiva de vaqueiros coordenada por Manuelzão. O objetivo do grupo era acompanhar, em um percurso de 240 km, a condução de uma boiada de 180 reses que iria da fazenda Sirga, em Três Marias, à fazenda São Francisco, em Araçaí. Em um de seus cadernos de anotação da viagem realizada com vaqueiros mineiros – intitulado “Caderno de Zito” –, o escritor anota que Zito era o cozinheiro melhor, o maior guieiro, além de poeta, embora escondesse seus versos. Todos gostavam daquele homem “franzino-pequeninotezinho”. Durante o ajuntamento do gado bravo, para não deixar o ilustre viajante acompanhar o trabalho arriscado dos vaqueiros, o pequeno sertanejo estendia para o escritor “os remédios da beleza”. Flagrantes da natureza revelavam-se aos olhos pouco acostumados com aqueles detalhes sutis:
Apontava-me um boi grande morrendo, o buriti fremente, o tecnocolorido das veredas. – Tudo o que é ruim, é fora de propósitos... – poetava?
Só que não recitava trovas. Outros, como Aquiles, Bindóia, o próprio Manuelzão, nômades da monotonia, faziam isso.

A relação com o vaqueiro simples oferece ao culto diplomata a oportunidade de conhecer melhor os nomes das plantas e dos bichos. A convivência proporciona a aquisição de diferentes aprendizados, possibilita a abertura para outras sensibilidades, outros valores e modos de pensar, além daqueles privilegiados pela civilização moderna ocidental. Em Grande sertão: veredas, Rosa parece recuperar as sugestões poéticas de Zito. No intervalo das batalhas do cangaço, Diadorim aponta para Riobaldo outros ares do sertão, apresenta-lhe “espaços de fuga” presentes no canto e nos modos distintos do passarinho Manuelzinho-da-Croa, “o passarim mais bonito e mais engraçadinho de rio-abaixo e rio-acima”.

Ainda em 1952, Rosa vai a Caldas do Cipó, no interior da Bahia, com Assis Chateaubriand, para participar de uma vaquejada. O presidente Getúlio Vargas comparece ao evento. Em 1956, mesmo ano em que outro médico mineiro, JK, assume a presidência da república e lança seu “Plano de Metas”, Rosa publica Corpo de baile e Grande sertão: veredas, livros que alteram para sempre o cenário artístico-literário do país. Em 1953, o diplomata começa a trabalhar como chefe da Divisão de Orçamento e, em 1958, é promovido a embaixador. Prefere, todavia, não chefiar nenhuma embaixada e permanecer no Itamaraty, no Rio de Janeiro. De 1960 a 1961, publica, em O Globo, na página literária, vários contos que posteriormente iriam compor o livro Primeiras estórias, de 1962. Nesse ano, assume o cargo de chefe do Serviço de Demarcação e Fronteiras. Em meados de 1967, mesmo ano de sua morte, publica Tutaméia.

Rosa constrói seu trajeto passando ao largo dos movimentos artístico-literários. Gostava da solidão junto às palavras. O escritor viveu no exterior por pouco mais de oito anos. O cotidiano e as tendências artísticas dos espaços onde morou não se transformaram em fortes temáticas de seus textos. A experiência dos lugares por onde passou ficou registrada em caderninhos de anotações, em ofícios do Itamaraty e em algumas crônicas. O sertão fluido, em movimento – conhecido melhor pela via do distanciamento diplomático –, ocupava seu pensamento criativo, seja morando na Alemanha, na Colômbia, na França, seja no apartamento do litoral carioca. Ali, próximo ao barulho das ondas do mar, desvendava sonoridades, mistérios e realidades daquele sertão que, vagarosamente, como o movimento contínuo das ondas, espalhava-se por toda parte. Na obra rosiana, o sertão revela-se como espaço dinâmico, lugar de encontro e de produção.

Ao elaborar narrativas, como a de Miguilim e a de Manuelzão, o autor deseja promover afetos, ativar sensibilidades adormecidas em relação à natureza e ao habitante simples do interior do país. O menino Miguilim achava crueldade os homens maus matarem o tatu assustado em “noites de belo luar”. No sertão mineiro, o progresso chegava destruindo matas para a criação de pastagens para gado. Com o desmatamento e com a construção da casa de Manuelzão, feita sem estudo adequado sobre as características do terreno, revela-se o lado obscuro da modernidade. Dentro de um ano, o riachinho à beira da casa seca-se no vazio da madrugada: “Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do barulhinho.”

No conto “As margens da alegria”, do livro Primeiras estórias, publicado em 1962, Rosa narra a história de um menino que foi com os tios ao lugar onde os homens iriam construir uma grande cidade – referência indireta a Brasília. Ali, o menino vê um belo peru surgir, causar-lhe alumbramento, para logo em seguida ser morto e substituído por outro. Vê ainda tratores destruindo árvores centenárias. O novo substitui o velho, a modernização traz a perda e sua substituição, o mundo torna-se instável.

Ao final de “As margens da alegria”, o menino observa uma luzinha verde, tremulante, na escuridão da lapa. Luz que se acende e se apaga, trazendo à criança a alegria misturada a uma esperança perceptível apenas na forma de presença/ausência. Nota-se, na passagem, a sugestão de se esquecer um pouco das imagens do progresso e da técnica – que apresenta qualidades mas também expulsa aves e destrói árvores – para surgir, do fundo da mata, uma luz escondida, uma potencialidade ainda cambaleante.

A literatura rosiana pode ser lida como um grande esforço de interpretação do Brasil. Ressalta-se, nesse projeto, a idéia de que o país precisa olhar melhor para os espaços esquecidos de seu mapa e reconfigurar, a partir desse lugar, uma nova imagem de seu território. Nessa perspectiva, não existe nação enquanto não for estabelecido um amplo pacto social no país, enquanto a preservação ecológica não for vista como dado imprescindível ao processo da modernidade.

Guimarães Rosa recriou a linguagem literária valorizando expressões populares, mesclando línguas distintas e inventando novas palavras. O escritor descobriu poesia e significados inusitados brincando com vocábulos e frases usuais. Ele burilava, com precisão de ourives, cada linha de sua escritura. O desejo de aproximar arte, imaginação, pesquisa e reflexão na compreensão da natureza, da cultura e da sociedade revela-se importante característica da prosa rosiana. A obra do autor permite diversas leituras, entre elas, as de linhagem estética, histórica, geográfica, psicanalítica e filosófica. As articulações estabelecidas pelo escritor mineiro entre diversas áreas do conhecimento permitem compreender sua produção literária como rico exemplo de trabalho transdisciplinar.

Rosa morreu de enfarte, em 19 de novembro de 1967. Atuava ainda como chefe de Divisão de Fronteiras do Itamaraty. A morte ocorre três dias após sua posse na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Por superstição, premonição, medo da emoção incontrolável que sentiria, adiara por quatro anos o momento de receber o fardão. No discurso, toca no tema da morte: “é quando um homem vem inteiro pronto de suas profundezas.” Ninguém mais inteiro que o próprio Rosa naquele momento, no qual a plenitude da vida aproximava-se do instante da morte, que chegava lentamente. Comoção, consciência do dever cumprido e percepção das fragilidades humanas misturavam-se. No discurso, o homem culto e viajado reencontrava-se com o menino do sertão, através do desenho da voz, do rabisco das palavras: “As pessoas não morrem, ficam encantadas”. A expressão antecede o desfecho do texto no qual ressalta, referindo-se ao homenageado, seu ex-chefe, João Neves da Fontoura: “Ministro, está aqui CORDISBURGO!”. A última frase, ao destacar o nome da cidade em caixa alta, revela a conclusão de todo um percurso intelectual e poético que busca mostrar o valor muitas vezes esquecido do interior do país às altas rodas da academia, da ciência, da política. Naquele salão repleto de pessoas de destaque no cenário político, cultural e social, o recado do morro distante poderia ser ouvido como proposta de tornar o país mais sertanejo, mais brasileiro. Para tanto, seria necessário ampliar os lugares de fala na sociedade, reconhecer diversos modos de saber do “homem humano” em sua travessia.

Roniere Menezes  – Doutor em Literatura Comparada pela UFMG e professor do Cefet/MG

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